BANCADA DIRECTA: O conflito israelo/palestiniano

sábado, 31 de janeiro de 2009

O conflito israelo/palestiniano

O conflito israelo/palestiniano.

Caros amigos leitores do Bancada Directa

Já passei por aqui algumas crónicas da Clara Ferreira Alves, publicadas na Revista Única do Expresso. Há três semanas CFA publicou uma crónica escalpelizando o conflito israelo/palestiniano.

Como resposta a esta crónica, José Pacheco Pereira apelidou a CFA de “militante palestiniana”. CFA não gostou, e depois de explicar o que a motivou a opinar sobre o conflito, também esclareceu que esteve de facto na região, mas em Telavive (Israel). Não me lembro, sinceramente, o que foi lá fazer e se esteva na faixa de Gaza, embora eu acredite que tenha lá estado e " in loco" se apercebeu de situações, que muitos comentam e não têm a noção da realidade. CFA ainda disse que Pacheco Pereira não sabia do que falava!

Clara Ferreira Alves volta novamente com uma crónica sobre o assunto, mas desta vez com um título bombástico.

Apresentamos a referida crónica

Matem esses bandidos desses palestinianos

O racismo tem muitas formas, e nesta guerra vimos o racismo apelar ao massacre os inocentes. Por estes dias vimos todos passar na televisão uma fotografia do Presidente Barack Hussein Obama com um kipá na cabeça. O kipá é uma meia-lua que os homens judeus usam na cabeça para significar, largamente, a sua devoção e submissão a Deus. Os não - judeus usam-no em sinal de respeito pelos judeus ou dentro de um templo ou instituição religiosa.

O kipá de Israel

Ninguém se deve ter surpreendido ao ver o kipá, nem ninguém o associou a uma qualquer simbologia sionista. Muito menos o kipá foi associado a agressão ou resistência, embora a história dos judeus seja uma história, como a dos palestinianos, de agressão e resistência. Imagine-se que Obama teria usado, na sua visita a Ramallah, o keffieh palestiniano, e a fotografia dele com o keffieh aparecia na televisão o mesmo número de vezes.

O keffieh palestiniano

Não faltaria quem, os apologéticos do costume, visse nesse keffieh não um sinal de respeito para com os anfitriões e sim um sinal de guerra, terrorismo e a temível lembrança de que Obama tem no meio do nome o nome do neto de Maomé, o assassinado Hussein, filho de Fátima e Ali. Ninguém se lembraria de pedir a Obama, ou a Clinton ou a Cárter para usar um keffieh. Todos usaram o kipá.

O lado palestiniano da guerra está tão contaminado pelo preconceito, à propaganda e à vitimização que os próprios palestinianos não se vêm como dignos de respeito e se apressam a tirar o keffieh da cabaça para simbolizar moderação. O keffieh tem má reputação, excepto para jornalistas estreantes à procura da pose. Começou por ser um símbolo de nacionalismo e da resistência contra a injustiça histórica da naqba e da Ocupação e acabou como um símbolo de tudo o que os ocidentais temem no mundo árabe e islâmico, o extremismo, o terrorismo, a luta armada.

O keffieh preto está associado à figura de Yasser Arafat e aos anos de terrorismo da OLP e das organizações da resistência debaixo do seu chapéu-de-chuva. Terrorismo que abandonou, como o Hammas um dia terá de abandonar, quando se sentar à mesa das negociações com Israel. O que quase de certeza acabará por acontecer, para espanto dos prosélitos que acha, que esta incursão sangrenta em Gaza deu cabo do Hammas, ou se destinou a dar cabo do cabo do Hammas. Basta olhar para trás.


O problema palestiniano, e o problema da desumanização dos palestinianos, entronca nestas associações erradas e nessa falta de respeito. E faz parte da tragédia íntima do povo palestiniano, que continua a ser visto pelo prisma estreito das televisões quando mostram os extremos jovens mascarados, “mártires” embrulhados na bandeira e mulheres ululantes.

Nos nossos confortáveis países emociona-mos quando morre uma baleia por dar à costa e não poder ser salva. Não nos emocionamos com as crianças mortas da palestina quando vemos passar no telejornal os corpos cortados pelos estilhaços ou queimados pelo fósforo branco. Em Portugal, tantos comentários diziam apenas, grosso modo, matem esses bandidos desses palestinianos, custe o que custar, mesmo que os guerrilheiros do Hammas se escondam atrás deles. A culpa é deles.

Uma das frases mais obscenas da guerra terá sido esta, inventada pela propaganda de Israel. Os homens do Hammas escondidos pelas suas mulheres e crianças “escudos humanos”. O Hammas pode ser culpado de muitos crimes, e é culpado de muitos crimes, mas este é um crime que não cometeu. O Hammas está dissolvido na população de Gaza, o sítio com maior densidade populacional do mundo, onde a família extensa é o núcleo principal.


O Hammas é um movimento de resistência, politico, social e religioso, permeado de uma violência intrínseca, típica dos gangues (foram gerados no cativeiro, humilhação e privação) e não é um movimento de cobardes que usam crianças para se protegerem. Dizer isto é tão obsceno como dizer que, dadas estas circunstâncias, é legitimo queimar e matar estas crianças. E as mães delas. E menos obsceno que dizer, como disse ainda a propaganda israelita, que o Hammas falhou porque não fez de Gaza “a Singapura e a Hong Kong do Médio Oriente”.

Israel sabe muito bem porque diz estas coisas, di-las porque há gente que acredita nelas. Gente que nunca pôs um pé em Gaza, nunca leu um livro desta história e só pôs um pé em Israel “gentilmente” pago pelo Governo Israelita.

Os palestinianos têm sido desumanizados. A propaganda palestiniana também nunca conseguiu inverter a ideia, preferindo o papel da vítima. Conseguir a paz nesta guerra significa, antes de mais, consoderar os palestinianos como seres humanos, mais cultos e politizados do que muitos europeus. e, em seguida, deixar de os condenar com o mesmo ódio com que se condenaram os judeus prestamistas de nariz adunco.

O racismo tem muitas formas, e nesta guerra vimos o racismo apelar ao massacre dos inocentes. Enquanto não os virmos como pessoas, jamais os veremos como um país.

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