BANCADA DIRECTA: Artigo demolidor de Clara Ferreira Alves no "Expresso".

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Artigo demolidor de Clara Ferreira Alves no "Expresso".

Caros amigos leitores do Bancada Directa

Este artigo de Clara Ferreira Alves, publicado no semanário "Expresso" é terrivelmente demolidor para a nossa democracia. Dá para meditar!




CLARA FERREIRA ALVES

(Nota do autor deste post: As opiniões e conceitos traçados neste texto de CFA, não reflectem, necessariamente, na sua totalidade, o que ele pensa, como cidadão deste país, nomeadamente, quando se refere as situações e atitudes da nossa Policia Judiciária)

Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido. Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" na sua dignidade pofissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada mas mais honesta que estes bandalhos. Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português> significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades. Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos. A justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.



Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada. Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas aconta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade. Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos Vale e Azevedo pagou por todos.

Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida? Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?

Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?

Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal? Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.

E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?

O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca. Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças , de protecções e lavagens , de corporações e famílias , de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

Clara Ferreira Alves - "Expresso"

7 comentários:

Anónimo disse...

Excelente!!! Lucidez contra-corrente!!! Deveria ser exposto em todo o sítio, qual Martinho Lutero com a sua Reforma Protestante!!!!

Gandim disse...

De facto, tem muito sumo e ácido q.b.!

Já agora, há diferença entre "piaçá" e "piaçaba", não há só uma forma de dizer bem, são 2 coisas diferentes:

Piaçá: “vassoura de piaçaba”

Piaçaba: “nome de duas palmeiras que produzem fibras empregadas no fabrico de vassouras”

Vassoura: “utensílio feito de ramos, giestas, piaçaba, etc., para varrer o lixo dos pavimentos"

in http://ctanganho.blogspot.com/2005/08/pia-ou-piaaba.html

Anónimo disse...

Eu fiz e com muita honra o programa das famigeradas NOVAS OPORTUNIDADES, a vida e a necessidade de TRABALHAR conduziu-me à escolha livre de abandonar os estudos no 11º ano de escolaridade, já como trabalhadora-estudante. Mas a vida também me ensinou muita coisa não menos importante do que a faculdade desta senhora jornalista lhe ensinou a ela, pelo menos aprendi a ser EDUCADA e não insultar os outros de burros...mas de volta às NOVAS OPORTUNIDADES, houve um dia que alguém se lembrou que se deveria Validar os conhecimentos destas pessoas e se comprovassem ter determinado grau de conhecimento, poderia obter a equivalência do ano escolar seguinte, a contar do ano escolar que obteve no ensino "comum".

Portanto a todas as pessoas que por qualquer motivo, pois há muitos...não gostam deste sistema de Reconhecimento Validação e Certificação das Competências, apenas lhes digo que TODOS NÓS APRENDEMOS MUITO AO LONGO DA NOSSA VIDA, FORA DOS "CONFORTÁVEIS" BANQUINHOS DA ESCOLA.... agora vou-me embora pois às 15h vou a JÚRI para concluir com muito esforço e satisfação o meu RVCC. Tenho dito.

P.S. À excelsa jornalista muitos parabéns pela sua "peça" deve ser uma sumidade...talvês umas barrinhas de cereais para a prisão de ventre lhe fizessem bem. É tão feio falarmos do que não conhecemos.
Armando Carvalho

Anónimo disse...

Foi com agrado que li esse post. Concordo "ipsis litteris" com o que ela escreve, e ao ver comentários de pessoas que levam isso para o lado pessoal e não conseguem ver além do seu próprio umbigo, reforça em mim ainda mais a certeza das palavras dessa jornalista!
Parabéns a ela pela coragem, pela ousadia e sobretudo pela franqueza!

Anónimo disse...

Fantástico é a a senhora esquecer-se do tempo que desempenhou funções como directora da Casa Fernando Pessoa, nomeada pela exa.PSL com cerca de 10.000€ de salário e seguro de saúde da Médis inclusive para o filho, mas este também é o país em que toda a gente vê as nodoas na camisa do outro e esquece a sujidade da sua.

insano disse...

Tendo para mim que o conhecimento e o saber resultam de todo um processo evolutivo contínuo, não posso partilhar da ideia de que os mesmos se encerram em pacotes fechados na forma de cursos académicos, apenas os detendo - conhecimento e saber - quem tais pacotes adquirir, conforme algumas opiniões que por aí se lêem, desvalorizando, e, quiçá, denegrindo até, processos como as Novas Oportunidades.
Tanto mais que, assistindo-se cada vez mais á centralização do ensino na especificidade objectiva de cada curso em particular, e em detrimento de disciplinas que certamente muito contribuiriam para a formação e reforço do carácter do indivíduo enquanto ser social, teremos cada vez mais uma sociedade egoísta, autista, despojada de valores e regida por princípios e fins meramente económico-financeiros, como nos pronuncia este presente.
Na Universidade da Vida, haverá certamente bons e maus alunos, como em todas as outras mais convencionais. Haverá gente de saber sem grau nem título, assim como as há nas outras com grau e título...mas sem saber.

lausdomine disse...

Nao te cales, o rapariga...

Obrigado Pela Sua Visita !