BANCADA DIRECTA: O Porquê nas Taxas de JURO

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O Porquê nas Taxas de JURO




Taxas de Juro, o porquê do sobe e desce

Nos últimos meses muito se tem falado e escrito sobre taxas de juro, subida de taxas e o impacto nos créditos habitação dos cidadãos. No início do século as taxas baixaram para níveis mínimos. Com o ano de 2006 chegaram as subidas de taxas e o elevar do nível de cedência para os patamares de hoje. As pessoas vêem que a taxa sobe, aliás sentem-na nas suas contas mas será que sabem o que isso significa e o porque desses movimentos? Com esta ideia no pensamento resolvi fazer este post. Não pretendo fazer nenhum ensaio muito elaborado mas apenas de uma forma simples desmistificar o que leva à decisão de mexer nas taxas e quais são os objectivos que o Banco Central têm nessas mesmas mexidas.



Em primeiro lugar é preciso entender quem é o responsável pela política monetária no nosso país. Até ao Euro o Banco de Portugal assumia como uma das suas funções a decisão sobre a taxa de referência. Com a mudança ocorrida na Europa esta responsabilidade transitou dos bancos nacionais para o BCE que centralmente define a politica de taxas para todos os países da zona euro. Note-se que das principais economias europeias apenas o Reino Unido manteve a sua moeda (libra) tendo mantido também o controlo por parte do seu Banco Central da política monetária. Desta forma, temos uma politica integrada que define estratégias para toda uma zona económica e não apenas para uma economia. Esta foi uma das principais consequências do Euro.



O porque de uma decisão de subida de taxas? As taxas de juro estão directamente ligadas à liquidez do mercado, ou seja, à facilidade de obtenção de unidades monetárias e à sua circulação no circuito económico. Numa situação de inflação ou tendências inflacionistas o mercado, de forma a não entrar em ruptura, tem necessidade de estabilizar. Ora a forma de o fazer é subindo as taxas. Porque? Ao subir as taxas o BCE está a condicionar os bancos no preço dos seus empréstimos. Ora uma subida no custo dos empréstimos leva as empresas a tomarem decisões mais restritivas na sua politica de investimentos. Reparem, uma determinada empresa que tencionava expandir-se e que para tal necessitava de recorrer ao crédito bancário, se esse crédito foi mais caro terá de repensar a decisão de forma a manter margens e rácios de acordo com a sua estratégia de negócio. Ao mesmo tempo, empresas com créditos já a decorrer vêem o peso dos seus encargos financeiros a agravarem-se, pesando nos seus custos e condicionando os seus resultados. Desta forma existe a tendência de aliviar os custos e o peso da massa salarial não é excepção. Além do impacto nas empresas, este movimento de taxas tem obviamente impacto nas famílias que vêem os seus empréstimos mais caros e como tal acabem por ter uma menor componente para a poupança ou consumo. Assim resulta que se as empresas investem menos e as famílias consomem menos, existe menos procura no mercado e menos dinheiro a circular (daí a expressão liquidez) o que resulta num abrandar da subida dos preços (inflação) ou mesmo no seu recuo. Um exemplo simples será o preço das casas, se os créditos, por via da subida de taxas, se tornarem inacessíveis, então os preços das casas não poderão subir de forma tão acelerada como o fizeram no passado, ou nalguns casos (ou patamares de preços) poderão mesmo regredir. O perigo deste movimento é obviamente o potencial de subida do nível de desemprego por via do desinvestimento e alívio de custos por parte das empresas, agravado pela diminuição de receitas (que resulta da diminuição das vendas, que como já vimos resulta da menor capacidade das famílias para o consumo).



Por outro lado a decisão de redução de taxas é tomada tendo como objectivo o estimular da economia. Pela mesma lógica uma redução das taxas incentiva as empresas a novos investimentos criando assim mais postos de trabalho e uma dinâmica de consumo ao nível dos bens de produção. Nas famílias o alivio nos custos financeiros e o aparecimento de novos postos de trabalho e provavelmente o aumento dos vencimentos e prémios resultantes dos melhores resultados das empresas, origina uma maior margem para o consumo e poupança, levando a um estimulo da economia. Existe desta forma maior liquidez, maior consumo e mais investimento, ou seja, (num cenário perfeito) crescimento económico. O risco desta politica é obviamente as tendências inflacionistas resultantes do consumo galopante originado pelos investimentos das empresas e pelo excedente de liquidez das famílias canalizado para o consumo.



Percebe-se assim que o equilíbrio entre inflação, desemprego e crescimento económico, está na base dos ciclos de subida e descida de taxas (isto de forma muito simplista obviamente e para ser facilmente entendido). Quero aqui ainda deixar duas notas, uma em relação ao mercado accionista e outra em relação ao mercado cambial. Quanto ao primeiro diz a teoria que uma subida de taxas provoca uma queda no preço das acções por via de dois motivos: os custos financeiros nas empresas aumentam por via dos juros e os seus resultados diminuem por via da diminuição do consumo. Ao mesmo tempo se o valor pago num depósito a prazo sobe os investidores mais conservadores poderão transferir algum valor que têm em acções para produtos mais conservadores. Da mesma forma, diz a teoria, que uma descida nas taxas provoca uma subida nos preços das acções devido ao aumento dos resultados das empresas por via do consumo e ainda do retorno dos seus investimentos. Pela mesma lógica temos ainda que os investidores mais conservadores poderão entender que estão agora mal remunerados nas suas aplicações tradicionais passando alguma parte do seu capital para as acções originando assim pressão compradora. Isto é o que diz a teoria, na prática nos últimos anos não tem sido assim. No inicio deste século as taxas desceram porque era necessário estimular a economia, no entanto os indicadores económicos e o sentimento estava tão baixo que os mercados continuaram a deslizar até mínimos muito acentuados face aos movimentos em alta da bolha especulativa dos últimos anos da década passada. Pelo contrário nos últimos dois anos, com uma politica mundial de subida de taxas, os mercados tem galopado para máximos históricos. Daqui resulta que a teoria deve ser compreendida mas mais importante é conhecer toda uma dinâmica dos mercados e daquilo que diariamente os influencia. Finalmente no mercado cambial, diz também a teoria que a subida das taxas de juro na zona euro provoca um aumento do valor do euro por exemplo face ao dólar. Porquê? Imagine um investidor que tem o seu dinheiro investido em dólares, ora se a taxa paga na zona euro é superior ou sobe, ele poderá decidir passar essa aplicação para a Europa sendo obrigado assim a comprar euros, provocando uma pressão compradora no activo e como resultado fazendo subir o euro face ao dólar. Mais uma vez isto é a teoria, na prática existem outras variáveis e o que se assistiu foi a uma politica muito agressiva dos juros nos EUA e mesmo assim o dólar atingiu mínimos históricos face ao euro. Também aqui é importante conhecer a teoria mas entender que existem muitos factores que justificam estes movimentos e devem ser tidos em conta.



Em resumo, os movimentos nas taxas fazem-se de ciclos, tentando dinamizar a economia para depois tentarem controlar a inflação que resultou desse crescimento provocado e tudo volta ao princípio. Em teoria os ciclos económicos são de sete anos, mas como já puderam ver no parágrafo anterior isso é a teoria, na prática é o que o homem quiser.



Por B. Costa no blog Port. e o Mundo



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