
" Os negócios dos dirigentes desportivos extravasam as fronteiras do futebol. Um mundo onde os favores se pagam, onde se fazem empréstimos de milhares em troca da palavra e onde se escolhem árbitros e pressionam dirigentes.
João Bartolomeu e João Loureiro conversavam ao telefone a 23 de Fevereiro de 2004. O presidente do Boavista já tinha tudo acertado com a Somague para o negócio do novo Estádio do Bessa, mas tinha acabado de avançar com todo o dinheiro que dispunha para o início do projecto. Precisava urgentemente de 750 mil euros (150 mil contos) para tapar outros buracos abertos na contabilidade do clube. E foi pedi-los a Bartolomeu, presidente do Leiria, lembrando-lhe que acelerara o negócio para que ele pudesse abrir as lojas junto ao Holmes Place. “Acelerei tudo por sua causa, para fazerem o Holmes Place. Agora preciso de um favor, que a sociedade que comprou as lojas [Montargila] me adiantasse dinheiro. Preciso de 150 mil contos”, dizia João Loureiro, enquanto João Bartolomeu se mostrava renitente. “Eu vou falar com eles. Vou ver”, respondeu, tendo João Loureiro adiantado logo uma solução: “Fazemos assim, nós temos de receber 240 mil e você ou a sociedade adianta, não custa nada. Você anda a nadar em dinheiro.”
Meses antes, o pedido de um favor tinha sido contrário. Em meados de Outubro de 2003, depois de o Leiria ter feito um humilhante início de época, João Bartolomeu pedira ajuda a Valentim Loureiro. “Tem de me meter aqui o Martins dos Santos a ver se me safo. Se não estou fodido. O Martins ou o Paulo Baptista. Mas o Martins é que era bom”, dizia Bartolomeu, que de tanto pressionar já começava mesmo a tornar-se inconveniente: “Ele que tenha calma, estamos a ver o que se consegue”, queixava-se Júlio Mouco, vogal do Conselho de Arbitragem da Liga, confirmando-lhe que Bartolomeu já lhe pedira o mesmo favor. “O Martins dos Santos está no Amadora-Paços de Ferreira. Mas vamos tentar fazer a troca”.
ESCUTAS COMPROMETEDORAS
Estas e outras trocas de favores podem ser lidas nas centenas de escutas do ‘Apito Dourado’. Onde os conhecimentos são levados ao extremo e as teias do negócio, da política e do futebol se confundem. Aprígio Santos, presidente do Naval, e Pinto de Sousa, presidente da Arbitragem da Federação, foram frequentemente interceptados em conversas com militantes comuns do CDS-PP. Enquanto isso, Valentim falava com Isabel Damasceno, presidente da Câmara de Leiria, para aquela “controlar” um árbitro da terra que iria apitar um jogo do adversário do Gon- domar. Atendia também políticos e ministros, tal como José Luís Arnault, que dizia mesmo que “estamos aqui uns para os outros”.
"DIZ-ME O QUE PREFERES"
“Diz-me o que é que preferes, não é preferível transferir o estádio e ficar mais terreno?”, perguntava Manuel Teixeira, chefe de gabinete de Rui Rio, a João Loureiro. “É mais fácil de embrulhar politicamente, no fundo vamos dizer que o Boavista faz um estádio”, explicava ainda o político, garantindo que com essa “troca” o Boavista ganharia terreno que depois poderia comercializar.
“Se me garantires 40 mil metros quadrados o negócio está feito”, respondeu o presidente dos axadrezados durante uma conversa ainda em investigação pela PJ, pedindo depois ao pai uma ajuda suplementar: “Quando estiver com o Rui Rio eles têm de esticar aquilo para cima.”
O QUE ELES DISSERAM
"Precisava de falar contigo, estou preocupa-díssimo com o Paulo Paraty, a continuar assim ele desce de internacional. [...] Precisava de trocar impressões para saber como é que a gente há-de resolver [...] Tenho as notas dele, dão para descer quanto mais para continuar como internacional." Pinto de Sousa fala com Valentim sobre a classificação de Paulo Paraty
"Tem de me meter aqui o Martins dos Santos, a ver se me safo, caralho, se não estou fodido. O Martins ou o Paulo Batista. Mas o Martins é que era bom.. [...] Tive o Martins na primeira jornada, perdi em Guimarães. Se não ganho o jogo vou direitinho." João Bartolomeu pede a Valentim que consiga a nomeação de Martins dos Santos para um jogo
"Levamos um trabalhão do diabo para chegar onde o Bartolomeu queria. [...] Fizemos as alterações. Assisti à conversa do major com o Luís. Se o Bartolomeu soubesse o trabalho que tivemos para pôr o Martins dos Santos..." Júlio Mouco, da Comissão Disciplinar da Liga, diz a Valentim que Martins dos Santos vai arbitrar jogo do Leiria
"Tive reunião com a Somague [...] acelerei tudo por sua causa, para fazerem o Holmes Place. Agora preciso de um favor, que a sociedade que comprou as lojas Montargila, me adianta-se dinheiro, eu preciso de 150 mil contos. [...] Não custa nada, você anda a nadar em dinheiro, vá-se foder." João Loureiro precisa de dinheiro e pede-o a Bartolomeu
PAULO PARATY MUITO ALÉM DO RELVADO
Pauto Paraty, árbitro internacional da Associação de Futebol do Porto, é uma das mais polémicas figuras do futebol português. O seu telefone foi colocado sob escuta pela Polícia Judiciária e muitas das suas conversas foram transcritas.
Paraty falava com Valentim, Pinto da Costa e Pinto de Sousa e os negócios mantidos com os homens-fortes do futebol ultrapassavam em muito os limites do relvado. Tratavam de negócios, designadamente a venda de material da empresa do sogro de Paraty, onde aquele é engenheiro.
Arguido no processo das classificações desportivas, o árbitro chegou a estar indiciado por corrupção passiva no jogo Gil Vicente-Sporting, a contar para a época 2003/2004. A conversa foi interceptada dias antes da partida e revela contactos entre o empresário António Araújo, que mantinha negócios com o FC Porto, e um dos auxiliares que fazia equipa com o árbitro do Porto Devesa Neto. “Eu depois de amanhã ligo-lhe, que eu precisava de falar com o Paulo [....] dar-lhe uma palavrinha”, disse Araújo a Devesa Neto.
Neste mesmo dia Paraty e Devesa Neto conversam e as escutas indiciam que o segundo árbitro auxiliar iria beneficiar o Gil Vicente. “O Serafim vai vacinado, vai benzido [...] vai benzido pelo lado norte. Bruxo. Vai benzido por dois lados até [...] pelo Minho e pelo norte.” À saída da PJ, quando foi interrogado como arguido, Paraty mostrou-se tenso. “Estive aqui na qualidade de árbitro”, disse.
OS ÁRBITROS QUE TODOS QUERIAM
Paulo Paraty, Paulo Baptista e Martins dos Santos eram os árbitros mais ‘solicitados’ pelos dirigentes desportivos. Do outro lado da balança está Duarte Gomes, que parecia ter o condão de fazer irritar todos os presidentes de clubes. João Ferreira e Proença só agradavam ao Sul e Bruno e Jacinto Paixão eram ‘escolhidos’ pelos clubes do Porto.
Paraty e o seu assistente Devessa Neto parecem fazer o pleno. Tanto agradavam ao FC Porto como ao Benfica e a frequência com que os seus nomes eram falados era grande. Por exemplo, João Rodrigues, que mediava os contactos entre a Federação e o Benfica, chega mesmo a dizer a Pinto de Sousa que para acalmar Luís Filipe Vieira “bastava nomear o Devessa Neto”. Disse-lhe ainda noutra conversa que Vieira queria o Paraty a arbitrar a meia-final da Taça com o Belenenses. “Ele não quer outro”, afirmou. Pinto da Costa também falava com frequência do mesmo árbitro internacional. Mostrava-se satisfeito quando ele era nomeado e nessa época são muitas as críticas feitas quando o mesmo apitou os encontros do Sporting.
Outra conversa que indicia o tratamento privilegiado de Paraty refere-se à sua classificação. No ano em que terminou em 3.º lugar no ranking dos árbitros (2003/2004), Pinto de Sousa garantiu a Valentim que Paraty corria o risco de descer de categoria. “Está nos 5 ou 6 dos últimos”, assegurou, enquanto o então presidente da Liga lhe lembrava: “Já no ano passado esteve mal, pensei que estava a correr melhor.”
NOTAS
CASA ESTAVA LIMPA
No dia em que a PJ fez a busca a casa de Pinto da Costa, aquela estava limpa e não havia qualquer documento relevante. A porta foi aberta pelo motorista, que já estava arranjado e barbeado.
SEGREDO FOI REVELADO
O MP, no despacho que arquivou o processo por fuga de informação contra incertos, defende que Pinto da Costa terá sido avisado por alguém da Polícia Judiciária do Porto.
SITUAÇÃO ANÓMALA
A procuradora que assinou o despacho de arquivamento à fuga de informação diz que é no mínimo anómalo que a então direcção da PJ do Porto não tenha tentado investigar o ocorrido.
SUBDIRECTOR AUSENTE
Reis Martins, subdirector da PJ do Porto e responsável pelo ‘Apito Dourado’ quando Pinto da Costa foi preso, disse que não sabia que aquele não estava em casa. De férias, soube quatro dias depois pela rádio.
NÃO QUERIAM PRENDER
Atayde das Neves, director da PJ do Porto em 2004, não queria prender Pinto da Costa. A revelação é feita no despacho de arquivamento à fuga de informação. Inspectores opuseram-se.

Dez de Junho de 2003. Pinto da Costa e Pinto de Sousa falam ao telefone. O presidente do Conselho de Arbitragem da Federação diz ao presidente dos azuis-e-brancos que já escolheu o árbitro para a final da Taça de Portugal, que irá opor FC Porto e União de Leiria.
Pedro Henriques é o árbitro escolhido para o jogo, mas a justificação para a nomeação torna-se difícil. Nessa altura, Pinto de Sousa já sabe que o árbitro será o quarto classificado na I Liga, o que poderá levar a que a nomeação seja duvidosa.
Em terceiro ficara João Ferreira, um árbitro que se percebe ao longo das muitas escutas do ‘Apito Dourado’ que não é do agrado do FC Porto. E deveria ser ele o nomeado. “O Pedro Proença está em Toulon. O segundo é o Paulo Costa, o terceiro o João Ferreira”, diz Pinto de Sousa ao presidente portista. E acrescenta: “Tive de os ultrapassar, fazer de conta.”
João Bartolomeu não gostou da nomeação. Quando percebe que a escolha recaiu sobre Pedro Henriques questiona o presidente da Federação e diz-lhe que a decisão deverá ter sido do presidente dos azuis-e-brancos. “Não falei com o Pinto da Costa. Dou-lhe a minha palavra de honra”, diz-lhe Pinto de Sousa, que cinco dias antes falara de facto com Pinto da Costa.
O telefonema seguinte é sobre a forma de alterar a classificação e justificar a escolha. Pinto de Sousa diz a Pinto da Costa que a alteração no sistema será feita por um técnico de informática. “Já foi a reunião. Ficou em terceiro”, conta Pinto de Sousa ao árbitro auxiliar António Perdigão que lhe pergunta surpreso: “Trocou?”
No meio de todos estes acertos, Pinto de Sousa e Pinto da Costa só lamentam não ter conseguido ajudar Bruno Paixão. Pretendiam que ficasse em quinto, mas aquele foi ultrapassado por Carlos Xistra. Mesmo assim, asseguram, continua garantido o lugar de árbitro internacional para o juiz de Setúbal.
Outras escutas revelam ser habitual este procedimento, onde se chega ao ponto de escolher observadores mais ou menos exigentes para subir e descer notas a árbitros.
QUEIXAS DE BARTOLOMEU
Eram frequentes as queixas do presidente da União do Leiria, que acusava Pinto de Sousa de ceder aos pedidos de Pinto da Costa.
PAULO COSTA NÃO PODIA
Paulo Costa era o segundo classificado nessa época, mas nunca poderia apitar o jogo por ser da Associação de Futebol do Porto.
MAIOR CERTDIDÃO AINDA ESTÁ EM INQUÉRITO
A investigação relativa à viciação das classificações na arbitragem permanece em inquérito. Foi avocada pela equipa liderada por Maria José Morgado por ser um processo que corria no DIAP de Lisboa, sede da Federação Portuguesa de Futebol. Diversos árbitros da 1.ª categoria são visados nessa investigação e o procurador Carlos Teixeira, do Ministério Público de Gondomar, sustenta que foram viciados os resultados dos árbitros nas épocas 2002/2003 e 2003/2004.
Além de Pinto da Costa, também João Loureiro, Valentim Loureiro e Isabel Damasceno (presidente da Câmara de Leiria) são arguidos no mesmo processo, onde se questiona a escolha dos observadores como um dos factores que permitia alterar os resultados. Outra conversa anexa ao ‘Apito Dourado’, entre António Henriques, vogal da Comissão de Arbitragem, e Pinto de Sousa, o presidente do órgão, revela isso mesmo. O dirigente máximo pede ao amigo para nomear dois observadores para um jogo que será arbitrado por Hernâni Duarte. “Para apanhar duas porraditas”, diz Pinto de Sousa, que explica ainda o procedimento usual: “Assim fica mais equilibrado.”
"QUAL É A COR DO JUIZ?"
No mesmo dia (24 de Outubro de 2003) em que os azuis-e-brancos reagiam em comunicado ao anúncio de que a Comissão Disciplinar da Liga abrira um processo disciplinar ao FC Porto para apurar se Maniche já tinha um contrato assinado com o clube antes de sair do Benfica, Valentim Loureiro ligava a Emanuel Medeiros, secretário-geral da Liga e actual responsável pelas ligas europeias. Pediu-lhe que obtivesse informação sobre o juiz a quem seria entregue o processo. “O conselheiro José Ramos da Silva, qual é a cor clubística?”, perguntou o presidente da Liga, deixando ainda uma indicação ao mesmo funcionário: “Tenho de saber es-se conjunto de juízes conselheiros, magistrados, onde trabalham, quem são, o que fazem. Vê se tira o currículo de todos.”
Dois meses depois, em Janeiro de 2004, ainda o processo corria na Liga, Valentim e Pinto da Costa voltaram a discutir o mesmo assunto. O major ligou então a Gomes da Silva, o juiz que liderava a Comissão de Disciplina, e deu-lhe conta do desagrado do presidente dos azuis-e-brancos. “O Pinto da Costa está f... Aquela história do Maniche, sem mais nem menos, dá logo processo disciplinar?”
Gomes da Silva tenta explicar que não havia outra forma de actuar. “Não, o Benfica é que intentou a acção disciplinar. Não havia nada a fazer”. E lembra que tudo não passava de um pró-forma. “Mas diga ao Pinto da Costa que isso é para arquivar.”
As escutas do ‘Apito Dourado’ revelam ainda que Valentim não desistiu: “As pessoas ficam sempre fod... com essas coisas dos processos e ele está farto de dizer ‘este juiz persegue-me’”, ao que Gomes da Silva respondeu: “Ó major, é para arquivar, ele bem sabe.”
O QUE ELES DISSERAM
“Vai ser o Pedro Henriques. [...] Não foi o primeiro, o primeiro foi o Proença, que está Toulon. Passei à frente o segundo, não digas nada disto, pá. [...] O segundo foi o Paulo Costa, o terceiro era o João Ferreira, eu tive de os ultrapassar, fiz de conta que não sabia...” Pinto de Sousa informa Pinto da Costa da nomeação de Pedro Henriques
“Já tenho dores de cabeça. O Bartolomeu não se cala, não se conforma. [...] Exactamente. Só que eu estou interessado que o Pedro Henriques fique em terceiro, não custa nada fazer a troca, até já mandei o gajo da Federação, um engenheiro, vem cá com o computador fazer isso.” João Bartolomeu interroga Pinto de Sousa sobre a nomeação. Pinto de Sousa fala a Pinto da Costa
“Já saíram as classificações, o terceiro é o Pedro Henriques e o quarto é o João Ferreira. [...] Hoje vem no jornal que afinal o Pedro Henriques era o terceiro... Infelizmente, não trocaram o Xistra com o Bruno [Bruno Paixão ficou em 6.º] mas vamos pôr o Bruno a internacional.” Pinto da Costa toma conhecimento por Pinto de Sousa da mudança na classificação
VALENTIM ASSUSTA LUÍS GUILHERME
Luís Guilherme, presidente da Comissão Disciplinar da Liga de Clubes, ficou verdadeiramente assustado com a hipótese de Valentim Loureiro se demitir. A ameaça foi feita em jeito de “chantagem” e combinada entre o major e Emanuel Medeiros, secretário-geral do mesmo organismo.
As conversas aconteceram nos últimos dias do mês de Outubro, em 2003, depois de o Boavista ter sido prejudicado num jogo da Liga. Valentim ficou irritado com as incidências do jogo e pediu a Emanuel que falasse com Guilherme e lhe dissesse que admitia demitir-se, provocando a queda do organismo: “Já transmiti a coisa ao gajo, ficou preocupado. Disse que vai atrás”, contou o secretário-geral minutos antes de o próprio Luís Guilherme ligar a Valentim: “O senhor presidente não passa aqui na Liga? Para conversarmos?”, perguntou Guilherme. “Não me apetece passar aí, estou cheio disto. A levar porrada de todo o lado, por causa arbitragem.”
Luís Guilherme ainda disse que não era assim. Que na sua opinião “há certos erros que são sem querer”, mas Valentim manteve-se inflexível. “No momento em que o senhor sair eu saio consigo”, disse Guilherme. A pressão parece ter dado frutos um mês depois, quando Júlio Mouco explicou a Valentim as razões da nomeação de João Ferreira para um jogo do Boavista com o Estrela. “O Luís acha que este jogo não é assim tão difícil. Mete-o agora e fica liberto, não leva mais com ele...”
NOTAS
JULGAMENTO À ESPERA
O julgamento em Gondomar continua à espera de ser marcado. O incidente de escusa requerido pelo juiz já foi distribuído no Tribunal da Relação, mas ainda não foi apreciado.
INSTRUÇÃO NO TIC DO PORTO
A instrução dos processos relativos aos jogos FC Porto-Estrela da Amadora; Beira-Mar-FC Porto e Boavista-Estrela da Amadora vão decorrer no Tribunal de Instrução Criminal do Porto. As datas ainda não estão marcadas.
MARCADO PARA NOVEMBRO
O julgamento que opõe Pinto da Costa ao Estado começa no próximo dia 27 de Novembro no Tribunal de Gondomar. O líder portista reclama uma indemnização de 50 mil euros por alegada prisão ilegal. "