BANCADA DIRECTA: Morte Súbita no Desporto

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Morte Súbita no Desporto

Depois de várias mortes nos últimos anos, e duas esta semana, penso que se justifica este depoimento de Carolino Monteiro um especialista em genética humana, que nos explica numa entrevista ao jornal online "Alvor de Sintra" como se podem reduzir alguns casos de morte súbita e porque acontecem...


"Número de casos pode ser reduzido com testes genéticos" defende especialista


Um exame genético pode contribuir para reduzir os casos de morte súbita, refere o especialista em genética humana Carolino Monteiro, que defende o diagnóstico precoce do risco para evitar casos como o do futebolista espanhol António Puerta.


Carolino Monteiro, que é também professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, refere que esta é “a doença genética mais prevalente”, pois “um em cada 500 indivíduos têm um gene que pode originar morte súbita”.

A doença, denominada cardiomiopatia hipertrófica, pode ser hereditária e tem uma origem genética.

Carolino Monteiro refere que o número de casos deste tipo de morte súbita “pode ser diminuído” através da realização de uma análise genética, salientando que, “se existe o saber, se existe a possibilidade de se desenvolverem condições para esses testes serem realizados, ela deve ser oferecida a quem necessita”.

Na Faculdade de Farmácia, o especialista em genética humana e a sua equipa investigam desde 1996 a morte súbita, com e sem esforço, em jovens e em adultos.

“Estamos a analisar quais são as alterações genéticas que estão associadas ao risco de morte súbita”, que acontece “quando os genes fazem com que as proteínas do músculo do coração deixem de funcionar”, afirma Carolino Monteiro.

No caso dos desportistas federados, como eram os futebolistas do Benfica Miklos Fehér e Bruno Baião e o defesa sevilhano Antonio Puerta - vítimas morte súbita -, o risco aumenta devido ao facto de estarem regularmente expostos a grande stress e esforço físico.

No caso do jogador do Sevilha FC, que morreu terça-feira, três dias após ter desmaiado em campo, ainda não há informação sobre a autópsia, mas Carolino Monteiro diz ter-se tratado de “uma situação característica de morte súbita”.

Na quarta-feira, o zambiano Chaswe Nsofwa, 28 anos, morreu depois de ter desmaiado durante um jogo-treino do seu clube, o Hapoel Beersheva (Israel). O inglês do Leicester Clive Clark, 27 anos, está internado com um quadro clínico estável, após ter sofrido duas paragens cardíacas no jogo da Taça da Liga inglesa com o Nottingham Forrest.

“O que temos vindo a defender é que aos indivíduos com profissões sujeitas a stress”, nomeadamente os desportistas, “deveria ser-lhes oferecido, e até ser obrigatório, um teste genético”, defende Carolino Monteiro.

O investigador considera que, analisando 100.000 atletas numa proporção de um para 500, a da prevalência da doença, há “a possibilidade de prevenir a morte súbita de 200 cidadãos”.

Uma das conclusões da investigação que vem sendo desenvolvida na Faculdade de Farmácia ajuda a compreender porque é que a existência de risco de morte súbita é difícil de detectar, nomeadamente nos atletas.

De acordo com Carolino Monteiro, o coração de um desportista é mais musculado, mais dilatado, características idênticas às apresentadas por um coração que incorpora um risco de morte súbita.

O aspecto do coração do desportista pode constituir, assim, um factor que “mascara” o diagnóstico: “As equipas médicas são apanhadas de surpresa e não é por erro técnico dos médicos que acompanham os jogadores”, salienta.

O laboratório da Faculdade de Farmácia, em colaboração com o cirurgião Manuel Antunes, dos Hospitais da Universidade de Coimbra, fez o primeiro estudo no Mundo sobre esta matéria.

“Conseguimos mostrar que a doença existe porque os genes funcionam mais do que deviam. Há casos em que estão a funcionar 200 vezes mais e até 600 vezes mais e a produzir proteínas que vão precipitar-se no músculo cardíaco e que poderão ser causa de, em determinado momento, haver morte súbita”, salienta o professor.

Um exame genético preventivo permite identificar se há ou não o risco e, em caso afirmativo, eliminá-lo, além de obrigar a alargar o rastreio aos familiares próximos, como os irmãos e os filhos, pois no caso dos descendentes o risco de também terem a doença “é de um em dois”.

Estes exames genéticos são realizados em centros especializados e na Faculdade de Farmácia, cujo laboratório já apresentou um projecto a diversas entidades, com o objectivo de colocar os seus conhecimentos e meios à disposição para um diagnóstico precoce.

O projecto de desenvolvimento indica que, só a Faculdade de Farmácia, teria “capacidade para efectuar 10 a 15.000 exames por ano”, sendo o tempo de resposta para cada exame é de “algumas semanas”.

Para o especialista, Portugal “tem condições para dar um passo em frente” no apoio aos portadores desta doença e mostrar que o país pode “fazer tão bem ou melhor que os outros que ainda não tomaram iniciativas nesse sentido”.


Fonte: Alvor de Sintra



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