BANCADA DIRECTA: Os Aprendizes de Cruyff

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Os Aprendizes de Cruyff

Já li muitos artigos de Luis Freitas Lobo que considero um génio na arte de bem escrever o futebol do relvado para o papel e achei que merecia ser aqui transcrito na íntegra alguns dos seus artigos, pois considero geniais com o seu consentimento claro.



Em busca da pedra filosofal do belo futebol:

OS APRENDIZES DE CRUYFF


As marcas da aparição divina de Cruyff no mundo futebol continuam bem vivas. Com ele, o futebol conheceu a sua quinta dimensão. Primeiro, como jogador, depois, como treinador, herdeiro da escola-Ajax, um «futebol de autor.» Depois da sua retirada do banco do Barcelona, muitos gostam de se assumir como aprendizes ou profetas do seu modelo. Esquecem-se que, como Jesus Cristo ou Maomé, Johan Cruyff só houve um.

Como consequência surgem complicados sistemas tácticos e indecifráveis métodos de treino. O segredo mágico de Cruyff era, porém, a simplicidade em tudo o que fazia. Com a bola nos pés ou como mero observador. Um dom descrito no livro Brilliant Orange, onde se narra como analisava um jogador longe do relvado. “A sua técnica não é boa”, dizia. “Mas como pode dizer isso tão seguramente?”. “É obvio. Quando ele chuta a bola, o som é o errado. Quando chutas correctamente, tens de antes tocar a relva, penteá-la um pouco por baixo da bola como numa tacada de golfe. Isso ouve-se e é um som agradável.” Pelo simples som que a bola faz ao ser rematada, sabe-se para onde ela vai, a intensidade do remate, sua direcção e velocidade. Foi esta noção de tempo e espaço, com a bola, que fez a revolução do futebol holandês. Cruyff teve como mestre Michels, o pai do Futebol Total, mas a verdade é que o aprendiz suplantou o sistema que sem ele nunca teria vida própria.

Poderá, depois, como treinador, falar-se num verdadeiro e original sistema-Cruyff? Penso que não. A base da poção mágica de Michels, desenhada em 3x4x3, continuava lá: três defesas, dois extremos, posse e circulação da bola, e um guarda redes adiantado, meio libero, a jogar com os pés. Cruyff apenas desenvolveu estes conceitos imaginando-os como se ainda estivesse em campo. Quando em 82 regressou á Holanda para pendurar as chuteiras, ainda inspirou, no relvado, o inicio de carreira de muitos jovens que em breve iriam gerar o renascimento laranja de 88: Van Basten, Gullit, Rijkard, Vanenburg e Koeman, colegas e pupilos. Curiosamente, esta influência mista também se estendeu á base da selecção-dinamite da Dinamarca, com Lerby, Jesper Olsen, Arnensen ou Molby, então também seus pupilos.

De todos os jogadores da geração moderna o que no estilo e no gesto mais se aproximou de Cruyff, foi Bergkamp, por si lançado em 87, com 17 anos. Faltou-lhe carácter e mais qualquer coisa que não se explica. Apenas se sente. Quando jogava, Cruyff para além de um futebolista fabuloso, era um grande bailarino. Conta-se que até Nureyev ficou magnetizado pela sua dança em campo, com o perfeito controle, balanço e graça de movimentos. Tudo traços de um espaço sagrado, prolongado fora dos relvados, onde muitos sonham penetrar. Pura utopia.



Van Gaal, o anti-Cruyf



Para além de escola de grandes jogadores, o Ajax também é de grandes treinadores. Van Gaal nunca possuiu a aura de Michels, Kovacs ou Cruyff, mas o facto é que antigo professor de liceu em Amesterdão, formado em educação física, diplomado pela Escola de treinadores da Federação Holandesa, ex-responsável por toda a formação do Ajax e ex-adjunto de Benhaker, é, entre 91 e 96, o técnico com mais títulos na história do clube. Por isso, não acredita nos treinadores de geração expontânea. A escola holandesa é, no entanto, um caso único. Em nenhum outro lugar, tirando os velhos países de leste, um treinador estuda tanto até estar habilitado a trabalhar na I Divisão. Muitos, mesmo após esse percurso, ficam na formação. É por isso que os jogadores desde muito novos têm noções tácticas que depois os ajudam ao longo da carreira.

A eficácia do sistema é a prova que um treinador têm de utilizar meios didácticos porque, afinal, como os professores nas escolas, ele também ensina alguma coisa aos jogadores,. Antes de ensinar, porém, tem de aprender muito. Apesar disso, Van Gaal ganhou fama de um disciplinador que só acredita na intuição quando em função da equipa. “Não creio no talento por si só, creio no talento e no ser humano que o possui conjuntamente”. Cruyff foi a excepção ao longo sistema de formação de treinadores pela simples razão de, sendo um génio, já como jogador era treinador em campo. Duas personalidade distintas que chocaram na Catalunha. Para Van Gaal, em Barcelona o sistema-Ajax não funciona. Embora mais fraco tecnicamente, o futebol espanhol é mais forte física e mentalmente.

Após a chegada, durante um mês Van Gaal pouco mais fez do que trabalhar o aspecto táctico. O futebol que se joga no sul da Europa peca por falta de colectivo e não é por acaso que os jogadores holandeses tem um sentido táctico único no mundo, adquirido num processo de aprendizagem que também é único. O estilo de jogo em Espanha tinha por isso de ser diferente. Cruyff, um intuitivo por natureza, Van Gaal, um metódico por sistema.

Fantástico e espero ter mais ...

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !