BANCADA DIRECTA

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Todo o cidadão tem os mesmos direitos perante a Lei. Será que a Lei foi violada nesta detenção mediática de José Socrates? Artigo de opinião de Clara Ferreira Alves

Todo o cidadão tem os mesmos direitos perante a Lei. Será que a Lei foi violada nesta detenção mediática de José Socrates?
Artigo de opinião de Clara Ferreira Alves


A Justiça é antes de mais um código e um processo na sua fase de aplicação. Ou seja, obediência cega, essa sim cega, a um conjunto de regras que protegem os cidadãos da arbitrariedade. Do abuso de poder. Do uso excessivo da força. Essas regras têm, no seu nó central, uma ética.

Toda e qualquer violação dessa ética é uma violação da Justiça. E uma negação dos princípios do Direito e da ordem jurídica que nos defendem. Num caso de tanta gravidade como este, o da suspeita de crimes graves e detenção de um ex-primeiro-ministro do Partido Socialista, verifico imediatamente que o processo foi grosseiramente violado. Praticou-se, já, o linchamento público. Como?
 
1) Detendo o suspeito numa operação de coboiada cinemática, parecida com as de Carlos Cruz e Duarte Lima, a uma hora noturna e tardia, num aeroporto, quando não havia suspeita de fuga, pelo contrário. O suspeito chegava a Portugal. Porque não convocá-lo durante o dia para interrogatório ou levá-lo de casa para detenção?

2) Convidou-se uma cadeia de televisão a filmar o acontecimento. Inacreditável.
3) Deram-se elementos que, a serem verdadeiros, deviam constar em segredo de Justiça. Deram-se a dois jornais sensacionalistas, o "Correio de Manhã" e o "Sol", que nada fizeram para apurar o que quer que seja. Nem tal trabalho judicial lhes competia. Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.

4) Leio, pela mão da jornalista Felícia Cabrita, no site do "Sol", pouco passava da hora da detenção, que Sócrates (entre outros crimes graves) acumulou 20 milhões de euros ilícitos enquanto era primeiro-ministro. Alta corrupção no cargo. Milhões colocados numa conta secreta na Suíça. Uma acusação brutal que é dada como certa. Descrita como transitada em julgado. Base factual? Fontes? Cuidado no balanço das fontes, argumentos e contra-argumentos? Enunciado mínimo dos cuidados deontológicos de checking e fact-checking? Nada. Apenas "o Sol apurou junto de investigadores". O "Sol" não tem editores. Tem denúncias. Violações de segredo de Justiça. Certezas. E comenta a notícia chamando "trituradora" de dinheiro aos bolsos de Sócrates. Inacreditável.
5) Verificamos apenas, num estilo canhestro a que a biógrafa de Passos Coelho nos habituou (caso Casa Pia, entre outros) que a notícia sai como confirmada e sustentada. Se o Watergate tivesse sido assim conduzido, Nixon teria ido preso antes de se saber se era culpado ou inocente. No jornalismo, como na justiça, há um processo e uma ética. Não neste jornalismo.

6) Neste momento, não sei nem posso saber se Sócrates é inocente ou culpado. Até prova em contrário é inocente. In dubio pro reo. A base de todo o Direito Penal.

7) Espero pelo processo e exijo, como cidadã, que seja cumprido à risca. Não foi, até agora. Nem neste caso nem noutros. Isto assusta-me. Como me assustou no caso Casa Pia. Esta Justiça de terceiro mundo aterroriza-me. Isto não acontece num país civilizado com jornais civilizados. Isto levanta-me suspeitas legítimas sobre o processo e a Justiça, e neste caso, dada a gravidade e ataque ao regime que ele representa, a Justiça ou age perfeitamente ou não é Justiça.
 
8) Verifico a coincidência temporal com o Congresso do PS. Verifico apenas. Não suspeito. Aponto. E recordo que há pouco tempo um rumor semelhante, detenção no aeroporto à chegada de Paris, correu numa festa de embaixada onde eu estava presente. Uma história igual. Por alturas da suspeita de envolvimento de José Sócrates no caso Monte Branco. Aponto a coincidência. Há um comunicado da Procuradoria a negar a ligação deste caso ao caso Monte Branco. A Justiça desmente as suas violações do segredo de Justiça. Aponto.

9) E não, repito, não gosto de José Sócrates. Nem desgosto. Sou indiferente à personagem e, penso, a personagem não tem por mim a menor simpatia depois da entrevista que lhe fiz no Expresso há um ano. Não nos cumprimentamos. Não sou amiga nem admiradora. É bizarro ter de fazer este ponto deslocado e sentimental mas sei donde e como partem as acusações de "socratismo" em Portugal.
10) As minhas dúvidas são as de uma cidadã que leu com atenção os livros de Direito. E que, por isso mesmo, acha que a única coisa que a Justiça tem a fazer é dar uma conferência de imprensa onde todos, jornalistas, possamos estar presentes e fazer as perguntas em vez de deixar escorregar acusações não provadas para o "Correio da Manhã" e o "Sol". E quejandos. Não confio nestes tabloides para me informarem. Exijo uma conferência de imprensa. Tenho esse direito. Vivo num Estado de Direito.

11) Há em Portugal bom jornalismo. Compete-lhe impedir que, mais uma vez, as nossas liberdades sejam atropeladas pelo mau jornalismo e a manipulação política.

12) Vou seguir este processo com atenção. Muita. Ou ele é perfeito, repito, ou é a Justiça que se afundará definitivamente no justicialismo. Na vingança. No abuso de poder. Na proteção própria. O teste é maior para a Justiça porque é o teste do regime democrático. E este é mais importante que os crimes atribuídos a quem quer que seja. Não quero que um dia, como no poema falsamente atribuído a Brecht, venham por mim e não haja ninguém para falar por mim.

A minha liberdade, a liberdade dos portugueses, é mais importante que o descrédito da Justiça. A Justiça reforma-se. A liberdade perde-se. E com ela a democracia.

domingo, 23 de Novembro de 2014

Dos fracos não reza a história. Hoje na Praia Grande. Sintra um corajoso desafiou o frio e a chuva e passeou no rebentar das ondas com varios mergulhos

Agradecimento ao nosso fotografo Carlos Santos pelo interesse que tem pelo Bancada Directa

Deus queira que o escaravelho que anda por aí a dizimar as palmeiras não se lembre de destruir as estruturas de cupula do Partido Socialista. Tudo por causa das virtudes negociais de José Socrates. Vamos a ver se o PS sai fragilizado ou robustecido para as Legislativas de 2015

Pois é! O mesmo aspecto de terramoto destruidor que se observa nas palmeiras parece que se está a estender ao Partido Socialista
Estrada Sintra/Ericeira (em frente ao cruzamento da
Godigana)
Estrada Sintra/Ericeira ( Localidade de Santa Susana)
Estrada Ericeira/Mafra (localidade do Seixal)
Estrada das Azenhas do Mar para Fontanelas
E o trabalhão que dá para alagar as palmeiras já mortas? Em São Vicente do Paúl os meus familiares gastaram 400 euros para alagar 3 árvores.

As fotos das palmeiras são do Bancada Directa e foram obtidas ontem, Sabado, pelo nosso amigo Carlos Santos, que teve a amabilidade de enviá-las para o nosso blogue 

sábado, 22 de Novembro de 2014

Enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Enquanto José Socrates arranja justificações e donde veio a pipa de massa gasta no aluguer da casa em Paris, a gente delicia-se com o Rancho Folclorico de Vila Verde na sua "chula de ir à frente"


O fim de um jogo democratico. O Partido Socialista tem agora um grande desafio para se definir, e se saber, se rompe com o passado. No Aeroporto de Lisboa, à chegada a Lisboa vindo de Paris, José Sócrates foi detido para ser testemunha em interrogatório

SÓCRATES DETIDO PARA INTERROGATÓRIO DEVIDO À CASA DE PARIS

Procuradoria-Geral da República já confirmou a detenção do antigo primeiro-ministro, que vai ser ouvido este sábado pelo juiz de instrução criminal.

Em causa está um processo de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

Vamos aguardar por o que se vai passar após o interrogatório

sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

O que faz correr Isabel Moreira? Nem se conformou que todo o partido recuasse na proposta para a recuperação das subvenções a ex politicos, como até se dá ao desplante de dizer que vai recorrer para o Tribunal Constitucional.

O que faz correr Isabel Moreira?
Nem se conformou que todo o partido recuasse na proposta para a recuperação das subvenções a ex politicos, como até se dá ao desplante de dizer que vai recorrer para o Tribunal Constitucional.

A deputada socialista Isabel Moreira admitiu esta sexta-feira à comunicação social que vai recorrer ao Tribunal Constitucional para repor as subvenções vitalícias. Não, nem o número que prepararam para esta manhã foi um repente de bom senso, nem a vergonha de ontem foi um mal entendido.
Depois de o PSD ter retirado esta manhã a proposta, Isabel Moreira admitiu participar num pedido de fiscalização sucessiva junto do Tribunal Constitucional da norma do Orçamento do Estado (OE) que mantém a suspensão do pagamento das subvenções vitalícias superiores a dois mil euros mensais a ex-titulares de cargos políticos.

Na sua página de Facebook, Isabel Moreira argumenta que “se o regime de excepção acabar, as subvenções retroactivas voltarão, mas em maior valor do que o que fora proposto.”

E lança farpas à direita: “Dois deputados [Couto dos Santos do PSD e José Lello do PS] propuseram o fim do regime de excepção quanto às subvenções, ainda assim penalizando-as mais do que o que se passa com a CES geral. Ontem, o PSD em comissão aceitou esta última proposta de um deputado do PSD e de um deputado do PS. Não é o PS que está em cheque no critério.

Temos de perguntar à direita por que razão só aceita esta alteração e não as outras propostas de justiça social fundamental.” Um comentário que já mereceu mais de 150 respostas, a maioria de contestação à proposta e à deputada.

As minhas reflexões neste Fim-de-semana. São os paradoxos da nossa existencia (2)

Não nos esqueçamos de que este Portugal é um país de paradoxos, melhor de insólitos que ninguém compreende:

1- Não bastava o surto de legionella que provocou para já 336 infectados e 10 falecimentos, apareceu agora o surto fraudulento dos "Vistos Gold", agora com uma incursão pela Camara da capital.

2- Não bastava a doença que grassa pela peninsula de Setubal dizimando centenas de pinheiros, apareceu agora o surto de escaravelhos que estão a deitar abaixo as palmeiras por todo o país.

Cada dia que passa isto vai pior!......

As minhas reflexões neste Fim-de-semana. São os "paradoxos" da nossa existencia (1)


quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

As tristes figuras que os nossos representantes fazem. Um é Presidente de uma Comissão Parlamentar e outro pertence a um governo ligado à máquina mas ainda é arrogante. Trata-se do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais e se calhar mais qualquer coisa













Paulo Núncio, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, e Eduardo Cabrita, deputado do PS, disputaram um microfone na Comissão de Orçamento e Finanças. Eduardo Cabrita, que também preside à comissão parlamentar, não deixou falar, por várias vezes, o governante, esta quarta-feira

Ver o video da situação clicando aqui

Fragmentos e Opiniões no Bancada Directa. A Drª Paula Cordas, uma importante figura pública entre as populações do Concelho de Mafra, diz de sua justiça, abordando o tema "A eterna guerra dos sexos"!.


A eterna guerra dos sexos

Artigo de opinião da Drª Paula Cordas


Nas conversas diárias, muitas vezes fazemos referencia às diferenças entre os homens e as mulheres. Em jeito de brincadeira, lá se vão elencando as inúmeras caracteristicas inatas do homem para determinadas profissões ou tarefas, às quais se riposta com tudo o que só as mulheres conseguem fazer…….e bem!

Poderíamos até fazer um enorme tratado sobre o que empiricamente sabemos sobre as diferenças entre os géneros, das grandes vantagens de um e do outro.

Poderíamos, igualmente, falar sobre o grande mérito destas complementaridades. Sim, porque quando os homens e as mulheres se unem em torno se um mesmo objectivo, constroem uma sociedade equilibrada.

Vem esta conversa a propósito de uma noticia publicada esta semana, sobre uma invenção chinesa, no minimo curiosa. Através de electrodos colocados nos musculos abdominais, é possível, por breves minutos, provocar no homem dores semelhantes às do parto. Isto para que se consiga valorizar o sofrimento da mulher.
Enalteço, obviamente, a capacidade do inventor, mas parece-me que só pode ser um homem…..é que as “dores de parto”, além de durarem mais do que apenas alguns minutos, não se reflectem apenas nos musculos abdonais.

Acreditem, há muitas mais alterações no nosso corpo, mas há ainda algo muito mais poderosos que dificilmernte se replicará: a maravilhosa sensação de se conseguir gerar um novo ser, que ultrapassa todos os desconfortos e seguintes Apesar de também entrar na brincadeira de vez em quando, encaro este tema com alguma leveza.

Para mim está bem esclarecido que, independentemente do género e das habilidades inatas que cada um tem, o que temos de fazer é o melhor que conseguimos, seja em que área for da nossa vida

Cada ser humano, homem ou mulher, tem caracteristicas únicas que deve potenciar a bem de si próprio, da sua familia e da comunidade. Elevendo o potencial de cada um, em conjunto seremos todos melhores

Paula Cordas

“Histórias do Noninoni”. Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena. Hoje apresentamos aos nossos leitores o trabalho de Arnes ( Trofa). É o episódio nº 4

“Histórias do Noninoni”.
Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos.
É uma coordenação de A. Raposo e Lena.
Hoje apresentamos aos nossos leitores o trabalho de Arnes ( Trofa).
É o episódio nº 4

Uma pequena nota introdutória ao episódio nº 4 das “Historias do Noninoni”.

Por vezes os leitores de Bancada Directa ficam a pensar e a presumir sobre quais as caractertisticas humanas e pessoais dos autores destes episódios e de um modo geral todos os escritores do universo policiário. Surge agora a ocasião de vos mostar, em tom ligeiro, as motivações prévias que um autor se serve para fazer o seu trabalho. Arnes é uma jovem escritora policiária e solucionista. Reside na Trofa. É de salientar a sua coragem em tentar ombrear com as feras do Policiarismo português. E não se sai nada mal.

Eis o que escreveu de preparação sobre o episódio nº4


............Nem sempre os nossos dias, são dias bons. Nem são preciso motivos específicos, acorda-se mais mal disposta, mais irritada, coisas banais. E é aí que nos aparecem " Anjos" que iluminam, alegram e nos puxam para cima.

Umas boas gargalhadas e no final pensamos. Mas afinal, porque é que estavamos irritadas? Tenho um grupo de Amig@s, que muito prezo e admiro. Hoje foram eles os meus "elevadores". Um grupo de gente "saudavelmente maluca", que me deram a honra de me acolher no seu meio. Pois é, e se achava que ía ser um dia de "trovoada", as nuvens dissiparam-se e o sol está aí a sorrir.

Eu sei que devia estar preocupada, pois tenho um assunto de cuecas roxas e bandarilhas para resolver, através da escrita conjunta da nossa nova trágico-novela (é desta que este grupo de "doidivanas" vai receber "O Prémio Nóvelo da Leitratura de Cordel") escrita a umas 12 mãos.

Será publicado numa edição de 6 fotocópias (por página), com capa dura e dorso de espiral, com lançamento do terceiro andar, na falta de coisa mais dura e mais à mão em caso de necessidade. Mas será sempre um motivo de boa disposição lidar com estes "parceiros", que eu adoro. Obrigada por fazerem parte da minha vida. E quando crescer quero ser igual a vocês!

Arnes

 
 Nota do blogue Bancada Directa
Contávamos hoje publicar a produção desta novela colectiva "Histórias do Noninoni" referente ao episódio nº 4 da autoria da "Detective Arnes" da Trofa.
Publicação que não é possível devido a não termos recebido a dita produção.
Assim, e porque se aproximam datas festivas, retomaremos em Janeiro a publicação desta novela colectiva.
Aproveitamos para endereçar aos nossos confrades empenhados nesta produção os nossos votos de Bom Natal
 
Adriano Rui Ribeiro
Roquetas de Mar. 2014. Nov. 20 

quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

Luís Piçarra é a lembrança de hoje do Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa

Luís Piçarra é a lembrança de hoje do Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”.
É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

LUÍS PIÇARRA
Foi um dos mais populares e cosmopolitas cantores portugueses de sempre, atingindo uma carreira internacional invulgar, graças a um repertório eclético que cruzava composições eruditas com algumas das mais belas canções de música ligeira do seu tempo.

Possuidor de uma voz ímpar, que viria a perder numa emboscada de guerra no norte de Angola, partilhou os palcos de quase todo o mundo com as maiores vedetas da canção. Fez furor nos Estados Unidos, Argentina, Egito, França, Itália e Brasil, criou êxitos mundiais, brilhou na ópera e na opereta, cantou ao lado Edith Piaf e ombreou com as vozes de Maurice Chevalier, Domenico Modugno, Tino Rossi e Luís Mariano.

Antes de se transformar no “Trovador Romântico da Europa”, Luís Piçarra, alentejano de Moura, esteve para ser advogado e depois arquiteto. O pai, um rico proprietário com ascendência aristocrática, começou por mandá-lo para um colégio suíço, em Lausanne. Depois de concluir o curso dos liceus, já em Lisboa, seguiu-se a matrícula na faculdade de Direito em Coimbra, que abandonou a meio.
E eis que surge então as belas-artes, primeiro na faculdade de Arquitetura em Lisboa e depois na École des Beuax Arts, sem ter completado o curso. Já então o rapaz se engajara no estudo de canto e música, decisão que terá contribuído decisivamente para o seu insucesso escolar. Durante os tempos do Liceu, Luís Piçarra havia atuado nos Coros da Ópera Nacional, tendo sido na altura aconselhado pelo maestro italiano Alfredo Podovani a aprofundar os seus estudos na área do canto, conselho idêntico que lhe fez pouco tempo depois o maestro napolitano Francesco Codivila que dirigia os coros do Coliseu dos Recreios.

E foi assim que ele chegou aos professores de canto Fernando de Almeida e Hermínia de Alargim, que foram o trampolim para a sua estreia na ópera “O Barbeiro de Sevilha” de Gioachino Rossini, levada a cena na Academia dos Amadores de Música de Lisboa, onde o cantor foi recebido com os maiores louvores da crítica especializada.

Para ganhar experiência e conquistar popularidade, Luís Piçarra decide enveredar pela opereta, género muito em voga na década de 1930, tendo participado no elenco de “A Lenda dos Sete Cravos”, “Zé do Telhado”, “João Tatão” e “Maria da Fonte”, espetáculos que o catapultaram para o cinema. “Aqui Portugal”, “Algarve Encantado” e “Pão Nosso” foram os filmes que ele protagonizou, ao mesmo tempo que integrava o elenco de tenores residentes da ex-Emissora Nacional, enquanto sonhava com uma carreira internacional. E esse sonho começou a ganhar forma quando foi convidado pelo tenor Tito Schipa a cantar com ele num concerto no Coliseu de Lisboa.
Com o fim da II Grande Guerra Mundial, Luís Piçarra partiu à conquista do mundo. Começou pelo Brasil, onde se estreou, em 1945, no Casino Copacabana, um dos espaços mais luxuosos do Rio de Janeiro. Na cidade carioca triunfa depois ao lado de Amália Rodrigues na opereta “Rosa Cantadeira”, percorrendo de seguida quase toda a América Latina. Na Argentina, interpreta a ópera "Manon", sucesso que o leva até ao Oriente.

No Cairo, o Rei Faruk convida-o a ficar como cantor da Corte e concede-lhe o título de Bey (equivalente a Conde). Nessa altura, Raul Ferrão envia-lhe uma cantiga a que chamou “Coimbra” e que ele transformou no sucesso mundial “Avril au Portugal”.
Outro dos grandes sucessos de Luís Piçarra, mas à escala nacional, foi o hino do Sport Lisboa e Benfica, clube que amava e nunca esqueceu, acompanhando a equipa em quase todas as deslocações à Europa, continente onde se fixou no final da década de 1950, após uma longa estada nos Estados Unidos para gravar 26 programas para a cadeia norte-americana NBC.

Em Paris, faz parceria com Edith Piaf no espetáculo “This is Europe” e em 26 programas televisivos, acompanhados pela famosa Orquestra de Paul Durand, e é o primeiro artista estrangeiro a pisar o palco do famoso Théâtre de la Gaîté-Lyrique, com as operetas "Un Portugais en Paris", "Colorado", "La Vie en Rose".
TV Excelsior. Brasil 1947. Na foto do grupo vê-se Luis Piçarra e Amália Rodrigues

Em França, de onde partia com alguma regularidade para outros países do velho continente, Luís Piçarra foi distinguido com a Comenda da Legião de Honra quando anunciou a sua vontade de se fixar na África do Sul. Já no continente africano, viaja de Joanesburgo para Luanda e convidam-no a acompanhar uma coluna militar para atuar noutras cidades daquela nossa antiga colónia.

A coluna cai numa emboscada e o cantor passa longas horas num pântano, mergulhado no lodo, circunstância que lhe danifica irremediavelmente a voz. Quando consegue sair para um lugar mais seguro, percebe que está rouco, mas não tem consciência da gravidade do seu estado. E... volta às cantigas.

O seu estado de saúde agrava-se e Luís Piçarra fixa residência em Luanda, onde consegue colocação na Emissora Oficial de Angola. Após a independência daquele país de língua portuguesa, regressa a Lisboa, com a mulher e os três filhos. Nessa altura tinha como rendimento único uma mísera pensão de reforma.
Capa da Revista Plateia nº 271. Referencia à fotonovela "O Autor" com Luís Piçarra e Ligia Telles. 1966

Empenha-se na produção musical, função que se obriga a abandonar quando lhe é diagnosticado um cancro nas cordas vocais, em 1998. O Presidente Ramalho Eanes concede-lhe a comenda da Ordem do Infante D. Henrique e o Governo atribui-lhe uma reforma por Mérito Cultural. Muito debilitado, foi viver com a mulher para a Casa dos Artistas, falecendo no ano seguinte.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Novembro. 17

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